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Relacionamentos líquidos (*)

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Relacionamentos viraram uma espécie de mercadoria. Não gostou? Veio com defeito? Troque. E troque tão rápido como você quiser, pois bastam alguns comandos no seu celular para tirar uma pessoa completamente da sua vida.

Os relacionamentos amorosos estão cada vez mais descartáveis atualmente. Casais se tornam casais por um tempo cada vez menor, cada vez com menos tolerância, mais exigências e mais cobranças. As frustrações amorosas para quem está solteiro e está tentando deixar de ser crescem de maneira exponencial. O paradoxo é que, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão fácil conhecer pessoas. Além dos locais e situações convencionais, que sempre existiram – como um bar, a fila de um supermercado, uma caminhada no parque, a academia e os colegas de trabalho ou estudo, por exemplo -, o fato é que hoje existe uma infinidade de possibilidades para quem está sozinho. Inúmeros aplicativos de paquera com diferentes perfis e voltados para públicos específicos, sites de relacionamento nos quais é possível definir exatamente que tipo de parceiro ou parceira se busca, as redes sociais cada vez mais presentes na nossa vida – tudo isso aliado à facilidade enorme de comunicação que trouxeram aplicativos como o WhatsApp, onde é possível conversar por meio de mensagens escritas ou áudios e ainda trocar fotos em questão de segundos.

Não há dúvida: nossa dificuldade não é conhecer pessoas. Pelo menos, não é apenas conhecer a pessoa certa, como reclama muita gente, após algumas doses de desilusão fuçando invenções como o Tinder ou o Happn, só para citar os mais populares aplicativos de paquera do mercado, nos quais temos uma grande chance de encontrar a maior parte dos nossos amigos, parentes, colegas de trabalho e vizinhos solteiros – e muitos casados também! Pensando por outro ângulo aparentemente bem razoável, nosso problema talvez não seja encontrar a pessoa certa, mas sim ser a pessoa certa quando encontramos alguém. A facilidade de conhecer pessoas, ou pelo menos de iniciar conversas com pessoas desconhecidas aparentemente atraentes e interessantes por meio dos recursos que a Internet nos oferece, é um dos grandes vilões que ajudam a implodir essas relações líquidas que conhecemos nos dias de hoje. Explico: sendo tão fácil conhecer pessoas, por que administrar conflitos? Por que deixar pra lá alguma diferença ou uma frase infeliz do outro? Basta deletar aquela pessoa e iniciar uma nova conversa com o próximo da lista. Não é o que a maioria faz?

O tema não é novidade, mas parece atingir níveis mais assustadores a cada dia. Em 2012, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, então com 87 anos e um dos intelectuais mais respeitados da época, lançava no Brasil seu livro “Amor Líquido”, de grande sucesso. Em sua obra, o autor procurava discutir porque as relações humanas estavam tão flexíveis e por que os seres humanos estavam dando mais importância a relacionamentos em “rede” (pela Internet, das mais diferentes formas, como e-mail, mensagens de texto e salas de bate-papo). Uma das conclusões é que, por ser essencialmente virtual, esse contato é mais fácil de ser encerrado, a qualquer momento. Para Bauman, nada era para durar. Bem-vindo ao futuro! Uma consequência imediata desse cenário pode ser o momento que vivemos hoje (com muito mais opções virtuais para se relacionar com as pessoas), sete anos depois, no qual as pessoas realmente parecem não saber mais como manter um relacionamento em longo prazo. Desaprenderam? Estão exigentes demais diante de tantas opções? Esse cenário sombrio não parece escolher idade, embora aconteça com mais dor nas pessoas acima dos 40 anos, normalmente divorciados (ou que pelo menos já moraram juntos com alguém durante algum tempo), pais e mães. São pessoas que, em geral, buscam de verdade um companheiro de vida. Encontram diversão, quando encontram. Nos mais jovens, dos 20 aos 30 e poucos anos, a dificuldade de namorar nos dias de hoje também existe. Mas nesta faixa etária, sempre falando de um modo geral, isso acontece com menos dor. Esse público não se incomoda tanto de se divertir com diferentes pessoas “erradas” ao longo de um mês enquanto a tal pessoa “certa” não cai do céu ou brota na tela do seu celular. Essas pessoas têm tempo para isso.

Relacionamentos viraram uma espécie de mercadoria. Não gostou? Veio com defeito? Troque. E troque tão rápido como você quiser, pois bastam alguns comandos no seu celular para tirar uma pessoa completamente da sua vida. E com mais alguns comandos, um pouquinho de paciência e uma dose de sorte, logo surge outro pretendente interessante. Interessante até que as conversas avancem um pouco. E segue o jogo. Um jogo altamente lucrativo para os proprietários dos principais aplicativos de paquera. Então, se você está solteiro e já desistiu dos aplicativos, pense de novo. Só no Tinder são mais de 9 milhões de pessoas em busca de um par e uma boa parte delas paga por isso. Assina o serviço para ter recursos extras que, na teoria, facilitam a paquera. É graças a esses serviços extras vendidos que o Tinder fatura perto de R$ 500 milhões por trimestre. Sim, a paquera é um ótimo negócio. As dificuldades que nós, os usuários, temos parece alimentar essa máquina de fazer dinheiro.

Uma contribuição para entender a dinâmica dos relacionamentos dentro do processo de coaching, seria a “casa dos relacionamentos saudáveis”, desenvolvida pelo Dr. John Gottman, que fundou o “laboratório do amor (Love Lab).  Gottman é pioneiro no uso do método científico para o estudo dos relacionamentos, se tornando um dos maiores especialistas mundiais no assunto. A casa dos relacionamentos saudáveis é composta por três níveis: sistema de amizade, de conflito e de significado. Segundo essa lógica, não há como não existir “conflitos” em um relacionamento. A diferença é a forma como cada casal irá lidar com esses conflitos. Os conflitos ocorrem por causa, sobretudo, das divergências de opiniões, divergências de personalidades e das diferenças de perfil de cada personalidade. Já no sistema da amizade, a ligação afetiva, a confiança, o companheirismo e a cumplicidade reforçam os laços do casal. Os melhores casais são grandes amigos e companheiros. E como administrar os conflitos? Sabendo quem eu sou, sabendo quem a pessoa é de verdade, sabendo do que ela gosta, sabendo do que eu gosto, sabendo que atividades ambos podem fazer juntos. A questão da “amizade” é essencial no sentido do casal saber conversar sozinho, saber se socializar, se admirar, saber buscar coisas que os dois tenham prazer em realizar. No sistema de significado, é quando existe uma vida em comum – isso acontece quando existem propósitos e significados partilhados, fortes o suficiente para que os dois se sintam motivados a imaginar um futuro juntos.

Acho que essa lógica explica boa parte do que acontece hoje entre as pessoas que acabaram de se conhecer. Elas iniciam pela amizade e quando chegam os conflitos não conseguem ir adiante justamente porque ainda não deu tempo do casal criar ou encontrar um propósito para eles estarem juntos. As relações mais duradouras, especialmente as mais antigas, seguem firmes e fortes porque as pessoas têm um propósito para estarem juntas e sabem alimentar isso no seu dia a dia com sabedoria e tolerância. Descobrir esse propósito, o mais rápido possível, é o grande desafio dos novos casais. Pode ser um jeito importante para conseguir administrar melhor os conflitos e não desistir logo de cara de algo que parecia promissor.

Particularmente, eu vejo as novas relações amorosas como startups, enquanto as relações mais antigas dos nossos pais e tios se parecem mais com as empresas tradicionais, nas quais as pessoas passavam mais tempo. Eram anos trabalhando, sem tanta pressa, esperando uma promoção que dava continuidade por mais um longo tempo à essa “relação”. Nos tempos atuais, nos quais as startups estão na moda, tudo mudou. As novas relações amorosas parecem seguir o modelo das startups, em que você precisa sempre acelerar os processos, precisa fazer diversas coisas diferentes de várias formas desde o início – e aqui eu destaco os aplicativos e as redes sociais. Hoje, o amor não é mais a consolidação do tempo. É a consolidação do momento. A deliciosa música “Amor e Sexo” (lançada em 2003), da genial Rita Lee, conta com muita poesia as diferenças entre o amor e o sexo à moda antiga, do tempo dessas empresas tradicionais que citei há pouco. Hoje em dia, o amor na era da startup não é mais o mesmo. Muitas relações “amorosas” de hoje, além de curtas, têm muito mais o perfil que Rita Lee descrevia como “sexo” na sua canção. O amor continua sendo “sorte”, como diz a canção. Cada vez mais, porém, o amor não é mais amizade. Não temos tempo para isso. É paixão mesmo.  Não é mais divino, nem é para sempre. É animal, carnaval, como pregava Rita para o sexo em sua música 16 anos atrás.

Embora tudo isso seja a nossa realidade de hoje, toda essa rapidez, essa busca interminável, essas frustrações e, principalmente, esta tecnologia toda ao redor do amor, “ainda somos os mesmos, e vivemos, como os nossos pais”, como cantava Elis Regina em “Como nossos pais”, 43 anos atrás. Isso significa que, por fora, parecemos e vivemos sim diferentes, mas por dentro ainda precisamos deixar esse mundo virtual de lado e buscar no olho no olho o conforto, a intimidade, a verdadeira descoberta sobre a outra pessoa. É no olho no olho, mesmo em tempos de amores líquidos, que podemos verdadeiramente aprofundar as relações, a amizade, o carinho. Nada substitui a conexão de dois corações em sintonia. Existem emoções e sentimentos que jamais poderão ser sentidos ou transmitidos por meio de uma tela. É este desafio que precisamos superar para que as relações voltem a ser, de fato, encontros de almas. E não encontros descartáveis, nos quais duas pessoas passam algum tempo juntas mais preocupadas em não expor seus defeitos e não encarar com maturidade e tolerância as imperfeições dos outros.

Haverá um momento inevitável em que os problemas não serão resolvidos simplesmente apertado a tecla “delete”. Quando fazemos isso apenas trocamos de problemas, ou às vezes nem isso. Trocamos só de par, com os mesmos novos velhos defeitos de sempre. Como disse no início e repito aqui, nosso problema talvez não seja encontrar a pessoa certa, mas sim ser a pessoa certa quando encontramos alguém. Desejar ter alguém, especialmente nos dias de hoje, é diferente de desejar construir um relacionamento sério. É importante termos consciência disso quando enfrentamos uma situação assim. Não há nenhum problema em ter uma relação descartável se ambos assim desejarem. Começamos a sofrer quando não admitimos ou enxergamos isso em nosso perfil. Será que estamos realmente prontos para o tal relacionamento sério? Será que nos amamos o suficiente para amarmos alguém e sermos amados na mesma intensidade?

(*) Artigo de Mari Clei Araújo, diretora da MC Coaching & Consultoria (www.mccoachingresults.com.br), cliente da g6 Comunicação.