Como serão os deslocamentos urbanos depois da pandemia?

20190908_200114
Márcio Canzian: CEO da Eletricz, distribuidora de veículos elétricos portáteis, como monociclos, bikes e patinetes.

A pandemia do coronavírus traz à tona muitas reflexões sobre nossos comportamentos em sociedade, hábitos, relacionamentos e estilo de vida. Neste contexto, e nessa nova forma de enxergar como cuidamos do planeta e da nossa qualidade de vida, novas tendências para a mobilidade urbana, sobretudo nas grandes cidades, devem ser reavaliadas. E a mobilidade por meio dos veículos elétricos portáteis – monociclos, patinetes ou bicicletas – deve ganhar cada vez mais adeptos. São os chamados “desertores” do modelo convencional de transporte que estão buscando modelos mais inteligentes, divertidos e ecologicamente corretos de ir e vir.

Há uma percepção que parece unânime: a pandemia terá efeitos perenes sobre o nosso estilo de vida, a começar pelo uso do transporte coletivo. A quarentena que vivemos tem como principal objetivo evitar aglomerações, pois o vírus é facilmente transmitido nestas situações. A disseminação de pessoa para pessoa pode ocorrer de forma continuada: uma pessoa infectada pode contaminar, em média, até cinco outros indivíduos. A transmissão do coronavírus, por exemplo, costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas, como gotículas de saliva, espirro, tosse, catarro, contato pessoal próximo, como toque ou aperto de mão, e contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, o nariz ou os olhos.

O transporte coletivo, especialmente nas grandes cidades brasileiras nos horários de rush, é sinônimo de aglomeração. É um ambiente que favorece a propagação de vários tipos de vírus. Em ônibus, metrô e trens, a falta de espaço dentro do veículo impede ou dificulta que o usuário cumpra orientações fundamentais para reduzir o contágio, como colocar a parte interna do braço (e não a mão) na boca ao tossir ou espirrar. As barras de apoio que as pessoas usam para se segurar favorecem a transmissão do vírus presente nas mãos. É por isso que o transporte individual deve despontar, mesmo depois da crise, como uma nova tendência no mundo todo, e também nas metrópoles brasileiras.  Ir para o trabalho conduzindo um veículo elétrico portátil e pessoal é muito mais seguro – é o caso do monociclo elétrico, um equipamento de mobilidade individual, rápido e versátil.

Este cenário deve favorecer toda a cadeia de produtos ligados à mobilidade individual, criando uma maior demanda por modais que atendam a estes novos hábitos. Outro mercado que também cresce sob esta crise são os serviços de entregas. Plataformas como iFood e Rappi, que se utilizam dos veículos pessoais, elétricos ou não, já impulsionam fortemente esse segmento de entregas.

Para que isso aconteça, é urgente que as cidades acelerem seu movimento de mudança. Precisamos criar espaços seguros para que todos circulem em segurança. É um movimento mundial no qual cada ponto do planeta está num degrau de desenvolvimento. Cidades como Paris e Barcelona, por exemplo, já investem pesado na micromobilidade, criando redes muito mais extensas de ciclovias, ciclofaixas e ciclorotas do que as de São Paulo.

Além disso, outro ponto que ainda requer propostas mais aprimoradas é a criação de linhas de crédito especiais através de bancos e financeiras, que tornem a adesão aos modais elétricos portáteis mais acessível para a camada da população que ainda se vê obrigada a utilizar o nosso precário sistema de transporte coletivo. Isso é fundamental para quebrarmos a dependência deste tipo de locomoção, reduzindo a aglomeração, os congestionamentos, e melhorarmos nossa qualidade de vida, mais ainda no mundo novo que se inicia pós-pandemia.

Future-se.

Márcio Canzian é diretor da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) e CEO da Eletricz, empresa especializada na distribuição de veículos elétricos portáteis.

(Este artigo foi originalmente publicado na editoria “Mobilidade” do Estadão)